Eu sempre te amei. Estarei sempre aqui para lhe lembrar toda a sua infelicidade.
Tão logo essas palavras me foram ditas, eu percebi que apenas uma dessas afirmações poderia ser verdade.
Sem máscaras e fantasias, a verdade sempre foi a segunda afirmação.
Não precisei de um baile ou de um casamento arruinado para perceber.
Crescemos e convivemos juntos. Por anos, apenas não nos falávamos. À princípio por possível constrangimento de minha parte, depois, por deboche da parte dele, outrora, por minha própria arrogância.
Todavia, essa verdade nunca me foi um segredo. Não desde nosso primeiro momento de fraqueza.
Que foi seqüenciado por uma tortura bruta e interminável.
Os anos de arrogância.
Descreva-me um romance com todas as boas situações e momentos de apreciação. Retire-lhe o carinho e deixe apenas o ciúme, a possessão e o sarcasmo de um bom romance. Assim seguimos por tempos. Um sem poder se deparar com o outro para usufruir de malícias e piadas infames. Bastava eu conhecer alguém novo para ele soltar clássicas discórdias que ele adestrava como uma hiena pode ser domesticava na Nigéria. Quando suas devoradoras-de-romance não eram capaz de acabar com meu humor, ele expunha-se nu e devidamente acompanhado, apenas “esperando por mim”, como sempre dizia a cada um de meus namorados.
Verdades ou mentiras, alguns acreditavam, outros apenas se irritavam. E, ele, feliz, lembrava-me de nossa proximidade inquebrável.
De nossos pais.
Sim, aquele a quem tanto me irritava eu tinha um grau de parentesco. Não que correspondesse ao sangue. Para minha sorte – não tão profunda – ele era apenas o enteado de minha mãe. Eu era para ele – assim como ele para mim – uma meia irmã que simplesmente aparecera no segundo casamento de nossos pais.
Pais os quais nos deixaram uma bela casa, uma boa quantia e uma empresa a qual gerenciávamos – sim, como um belo lembrete de romances clássicos, os falecimento dos dois deu-se devido a um acidente; dois amantes mortos, dois filhos que se odeiam unidos.
O que tornava minha convivência com ele ainda mais intolerável. E, uma vez mais, inseparável. Entre nós, apenas a guerra.
Até que eu comecei a perceber grandes lapsos de brigas e a ausência de generais em meu campo de guerra. Não haviam mais soldadas siliconizadas esperando nuas em nosso escritório ou mesmo notícias sobre o cancelamento de minha reserva para algum jantar a qual eu iria acompanhada. Nada de negativo vinha da parte dele.
Logo percebi que havia algo errado. Um possível próximo plano de ataque.
Então eu preparei o meu.
A infelicidade, dessa vez, foi a quebra de meus planos. A cara de pesar preenchia a inútil – e sensual – secretária de meu meio-irmão.
- Ele precisa de você.
Curta e doce como um mel de abelhas africanas.
Choque passou por minhas feições, enquanto aquela franzina e inexperiente garota me contava que ele estava em um hospital. Câncer. Algo que eu não esperava. Algo que me abateu.
O hospital me esperava.
Assim como meu meio-irmão, minha primeira paixão juvenil.
Eu sempre pressupusera que entre as duas afirmações que ele me dera, apenas a segunda estava certa. Porém, vê-lo deitado, sabendo que sua morte não tardaria, percebi que a segunda me sorria apenas por sua agradável e carismática falsidade.
Naquele momento eu quis ser anoréxica, loira e superficial. Queria que alguém me desse uma desculpa por minha falta de atenção a quem sempre estivera do meu lado.
O pensamento me levou a perceber, ironicamente, que fui eu quem havia decidido qual parte era verdade. Ele me dera uma caixa e eu não fui Pandora o suficiente para perceber que, no fundo daquele pequeno baú, havia outra verdade.
Culpei meu paradigma por achar que “amor” e “infelicidade” não pudessem ser uma verdade em conjunto. Lancei-me à mão de meu meio-irmão, meu primeiro amor. Um conforto que, agora, em nossas últimas lembranças juntos, pudesse, quem sabe, amenizar a dor que eu já sentia.
Como uma pessoa comum, desejei voltar ao nosso passado não tão distante e poder transformar meu momento de fraqueza em meu momento de jovialidade e força. De fazer aquele momento em que ele me beijou não apenas uma lembrança de algo que nos era proibido e incompleto, mas o início de nossa possível felicidade juntos.
Pois, no instante em que eu estivesse só, eu sentiria a tristeza novamente.
Dessa vez, por ele não estar mais aqui.
Sem máscaras e fantasias, a verdade sempre foi a segunda afirmação.
Não precisei de um baile ou de um casamento arruinado para perceber.
Crescemos e convivemos juntos. Por anos, apenas não nos falávamos. À princípio por possível constrangimento de minha parte, depois, por deboche da parte dele, outrora, por minha própria arrogância.
Todavia, essa verdade nunca me foi um segredo. Não desde nosso primeiro momento de fraqueza.
Que foi seqüenciado por uma tortura bruta e interminável.
Os anos de arrogância.
Descreva-me um romance com todas as boas situações e momentos de apreciação. Retire-lhe o carinho e deixe apenas o ciúme, a possessão e o sarcasmo de um bom romance. Assim seguimos por tempos. Um sem poder se deparar com o outro para usufruir de malícias e piadas infames. Bastava eu conhecer alguém novo para ele soltar clássicas discórdias que ele adestrava como uma hiena pode ser domesticava na Nigéria. Quando suas devoradoras-de-romance não eram capaz de acabar com meu humor, ele expunha-se nu e devidamente acompanhado, apenas “esperando por mim”, como sempre dizia a cada um de meus namorados.
Verdades ou mentiras, alguns acreditavam, outros apenas se irritavam. E, ele, feliz, lembrava-me de nossa proximidade inquebrável.
De nossos pais.
Sim, aquele a quem tanto me irritava eu tinha um grau de parentesco. Não que correspondesse ao sangue. Para minha sorte – não tão profunda – ele era apenas o enteado de minha mãe. Eu era para ele – assim como ele para mim – uma meia irmã que simplesmente aparecera no segundo casamento de nossos pais.
Pais os quais nos deixaram uma bela casa, uma boa quantia e uma empresa a qual gerenciávamos – sim, como um belo lembrete de romances clássicos, os falecimento dos dois deu-se devido a um acidente; dois amantes mortos, dois filhos que se odeiam unidos.
O que tornava minha convivência com ele ainda mais intolerável. E, uma vez mais, inseparável. Entre nós, apenas a guerra.
Até que eu comecei a perceber grandes lapsos de brigas e a ausência de generais em meu campo de guerra. Não haviam mais soldadas siliconizadas esperando nuas em nosso escritório ou mesmo notícias sobre o cancelamento de minha reserva para algum jantar a qual eu iria acompanhada. Nada de negativo vinha da parte dele.
Logo percebi que havia algo errado. Um possível próximo plano de ataque.
Então eu preparei o meu.
A infelicidade, dessa vez, foi a quebra de meus planos. A cara de pesar preenchia a inútil – e sensual – secretária de meu meio-irmão.
- Ele precisa de você.
Curta e doce como um mel de abelhas africanas.
Choque passou por minhas feições, enquanto aquela franzina e inexperiente garota me contava que ele estava em um hospital. Câncer. Algo que eu não esperava. Algo que me abateu.
O hospital me esperava.
Assim como meu meio-irmão, minha primeira paixão juvenil.
Eu sempre pressupusera que entre as duas afirmações que ele me dera, apenas a segunda estava certa. Porém, vê-lo deitado, sabendo que sua morte não tardaria, percebi que a segunda me sorria apenas por sua agradável e carismática falsidade.
Naquele momento eu quis ser anoréxica, loira e superficial. Queria que alguém me desse uma desculpa por minha falta de atenção a quem sempre estivera do meu lado.
O pensamento me levou a perceber, ironicamente, que fui eu quem havia decidido qual parte era verdade. Ele me dera uma caixa e eu não fui Pandora o suficiente para perceber que, no fundo daquele pequeno baú, havia outra verdade.
Culpei meu paradigma por achar que “amor” e “infelicidade” não pudessem ser uma verdade em conjunto. Lancei-me à mão de meu meio-irmão, meu primeiro amor. Um conforto que, agora, em nossas últimas lembranças juntos, pudesse, quem sabe, amenizar a dor que eu já sentia.
Como uma pessoa comum, desejei voltar ao nosso passado não tão distante e poder transformar meu momento de fraqueza em meu momento de jovialidade e força. De fazer aquele momento em que ele me beijou não apenas uma lembrança de algo que nos era proibido e incompleto, mas o início de nossa possível felicidade juntos.
Pois, no instante em que eu estivesse só, eu sentiria a tristeza novamente.
Dessa vez, por ele não estar mais aqui.
Steferson Zanoni Roseiro, 16 de dezembro de 2009









